Breaking Bad (5×04) – Fifty-one


É difícil estudar audiovisuais. É uma faca de dois gumes que te permite perceber aspectos técnicos que não são tão óbvios, mas também te faz perder um pouco da mágica em ver alguma série ou filme. Uma sensação de obviedade acompanha a maior parte daquilo que se assiste, mas isso te faz achar ainda mais incríveis os momentos em que você é pego de surpresa, seja pelos movimentos de câmera, roteiro ou atuações.  É estranho quando algo é tão bem construído, que só te resta é elogiar. É assim que “Fifty-one” me fez sentir.

Confesso que não tinha muitas pretensões para esse episódio, achei que seria mais um episódio focado no retorno do negócio de Walter. Estava duplamente enganado: foco aqui não é a anfetamina ou o Walter, mas Skyler. Nunca antes a personagem teve tamanho e merecido destaque, sendo o contraponto para o marido e a única que pode fazê-lo perceber as conseqüências trágicas do caminho que ele escolheu (afinal, ela é a única que consegue vê-lo trilhar). O resultado é que só Skyler tem medo do Walter, só ela percebe o perigo que pode ser contrariá-lo. Medo esse que só superado pelo instinto materno e, em ultima instancia, “Fifty-one” é o embate dos dois.

É incrível como o episódio começa calmo: Walter vai pegar o carro no concerto, quando encontra o chapéu (que caracterizou Heinsberg por muito tempo). Ao ver o chapéu, Walter percebe que já está acima dos problemas financeiros, naquele momento Heinsenberg toma conta da personalidade e compra dois carrões. No começo da série, as aparições do homem de chapéu eram limitadas a momentos de tensão e apenas no negócio, agora ele surge diante da família e Skyler não tem mais coragem de limitá-lo, como fazia antigamente. Toda essa cena inicial prepara, de forma muito sutil, a grande a discussão entre Walter e Skyler.

Por falar em sutileza, Breaking Bad é uma aula de atenção aos detalhes, quando os detalhes são bem pensados, as ações se justificam, mesmo aquelas mais inesperadas. Essa qualidade ajuda a dar um senso de importância para todos os planos, para todos os olhares e silêncios. Nada é gratuito em Breaking Bad. Assim, quando os policiais vão em direção à Lydia, os seus olhos assustados são o suficiente para explicar a sua tentativa de enganar Mike. Quando Skyler olha decepcionada para os carros novos, ou aperta o fio dental enquanto Walter tenta explicar, percebemos que ela está no limite e que ela pode explodir a qualquer momento.

Quando Skyler rompe seu silencio, é para pedir um internato para o Junior. É uma curta discussão, pois ela sente-se ameaçada pelo marido. Essa pequena discussão já é uma mostra da impotência de Skyler, que pode apenas assistir as decisões do Walter. Todo esse cenário é  a consolidação de sinais que a personagem estava dando desde a Season Premiere. Tudo isso leva a cena da piscina, que foi tão bem construída, tão bem pensada. Walter conta sobre o tempo que se passou desde o diagnostico, as lutas e o medo, enquanto Skyler caminha até o fundo da piscina. Note como a fonte de luz é diferente da fotografia escura que a série nos acostumou, é uma luz calma, um azul celeste, esses elementos indicam uma solução, uma saída para o drama da Skyler, e curiosamente foi Walter que mergulhou para trazê-la de volta. Tudo se explica na próxima cena: Skyler não tentou se matar ou procurar uma saída para si, aquilo foi um meio de afastar o Walter dos filhos, mantendo-os longe do ambiente que ela julga tão perigoso.

É depois desse evento que Walter confronta a mulher, cheio da sua lógica irrepreensível, que é completamente rechaçada. Esse confronto entre os personagens tem vários pontos, igualmente bem trabalhados. Primeiro porque é uma discussão infrutífera desde o começo, pois qualquer que seja o raciocínio de Walter, ele é menor que instinto protetor de mãe de Skyler. Mesmo que ela não possa impedi-lo em qualquer um dos seus planos, tirar os filhos daquele ambiente é seu único objetivo, mesmo que não duradouro. Como ela mesma diz, não há que possa fazer além de sentar e torcer para que o câncer volte.

Por falar nisso, que frase forte! Ridicula de tão simples. “Esperar que o câncer volte” é o auge da raiva de Skyler, o único momento da discussão em que Walter assume a defensiva. Importante notar que no começo é Walter bom e compreensivo quem tenta argumentar, mas, com o passar dos ataques de Skyler, Heinsenberg assume (muito bom vê-lo entrando em ação contra a esposa). Note como a câmera vai mudando, sutilmente, assumindo um contra-plongé. Essa posição de câmera serve para evidenciar a relação de poder entre personagens. Quando Heinsenberg assume, a câmera está equilibrada, mudando o ângulo a cada argumento, atingindo o auge no momento em que Skyler se senta. É a prova do quão bem pensados são os aspectos técnicos de Breaking Bad.

A cena pós-briga, em que Walter raspa a cabeça, é outro achado. A música pontual é tensa, digna de um filme de terror, há um plano detalhe em que sangue escorre pela cabeça (me lembrou a abertura de “Dexter”). Essa cena e as próximas representam o maior controle de Heinsenberg sobre Walter, controle esse que não é mais limitado em lidar com as negociações e em momentos de conflitos.

Ao brigar com Walter, Skyler o coloca na mesma posição em que ele esteve há tempos atrás: aonde ele não tem mais nada a perder. É muito bom não fazer idéia do que Walter é capaz quando não tem nada a perder.

“Fifty-one” é um desses raros momentos em que estudar dramaturgia vale à pena.

Artigo escrito por: Murillo Martins

One thought on “Breaking Bad (5×04) – Fifty-one

  1. Episódio mais do que dramaticamente perfeito. Concordo com cad apalavra que escreveste Murillo…

    Adoro estes momentos onde Heins surge para dialogar com Skylar, são sempre os melhores dialogos da série. Lembro-em até agora do fantástico I Am the Danger!!

    Atts

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