Community (3×21/22) – First Chang Dynasty/Introduction to Finality (Season Finale)


“Tudo acaba” – Sabedoria popular.

Durante algum tempo Community sofreu pela fraca audiência, lutando contra um cancelamento que parecia inevitável. Na luta por continuar existindo, a série perdeu seu produtor-principal e criador, Dan Harmon, demitido pela Sony. Assim, essa Season Finale ganha relevância, não só por ser um fim de temporada, mas por ser o fim de uma era em Community, o fim da era Harmon. Por esse motivo, olhar esses dois episódios de forma objetiva é impossível, esse é o fim da Community que aprendi a admirar durante os últimos três anos, para o começo de outra que pode ser muito próxima ou muito distante do alto padrão de qualidade e roteiro que a série me acostumou por tanto tempo. Queria que Community tivesse acabado sem perder Harmon, me poupando de assistir um episódio enquanto  me pergunto se ele poderia ser melhor sob sua a batuta. Esses “The First Chang Dynasty” e “Introduction to Finality” são os últimos em que essa pergunta não vai me assombrar:

3 . 21 – First Chang Dynasty

Quando Community quer brincar com referencias, ela o faz como nenhuma outra série, com uma atenção incrível aos detalhes. O episódio começa com um vídeo institucional da Greendale na era Chang, todos os detalhes dos institucionais de faculdade estão lá (muito parecidas com nossas propagandas políticas) com o passado triste sendo evidenciado em preto e branco em fotos sensacionalistas. Tudo muda quando no plano que mostra o Chang como o responsável em limpar Greendale. Toda a organização, os pós-adolescentes felizes, as grandes palavras que ocupam grande parte da tela, tudo faz parte de uma estética que nunca tinha realmente assumido como estética.

Após esse vídeo os integrantes do grupo tentam convencer um policial de que o verdadeiro Dean havia sido seqüestrado por Chang. Lógico que o senso de prioridade de Troy ou o perfeito timming de Britta atrapalham tudo, tornando impossível para o guarda-tenor acreditar em toda história. Quando Abed diz “plano-perfeito” fica claro que o filme seguirá, esteticamente e narrativamente, os audiovisuais de golpe como “Onze homens e um Segredo” ou “Leverage”.

Logo todo o episódio assume uma rápida e recortada montagem com transições, tudo no ritmo de uma rápida música. Outras características dos filmes de golpe vão se mostrando como, por exemplo, os lugares terem um plano de introdução com escrito dizendo horário e lugar, a narração em off  explicando as ações de cada um do grupo e seu papel dentro do grande plano, o plano falhar como parte de um plano maior.  Tudo num crescendo que funciona muitíssimo bem, sem deixar de lado a personalidade da própria Greendale.

Algo que nunca me canso de elogiar em Community é a atenção aos detalhes que vão além da estética que eles emulam. O episódio tem sua cota de sátira com os filmes de filme de golpe, mas não é só nelas que ele se baseia. A figura do ditador Chang é baseada em vários ditadores reais, como Mao-Tsé e Napoleão, Jeff foi impagável de Chris Angel, além de Troy e Abed se disfarçarem de encanadores com o bigode do Super Mario. Atenção incrível detalhes que enriquece o ambiente que a Greendale construiu para si.

De grande destaque do episódio tivemos o Jim Rash, que consegue fazer do Dean um personagem carismático e caricato na mesma proporção. Desde o momento em que ele aparece conversando com o boneco do Jeff (referencia a “Naufrago”?) até o momento em que ele assume Greendale (mesmo com suas falhas) tudo é perfeito na atuação de Rash. Além dele, Troy ganha destaque ao entrar para a faculdade dos reparadores de ar-condicionado em troca da liberdade do grupo de estudos e da chance de           salvar Greendale. Toda a cena em que Troy se despede dos amigos é muito condizente com o jeito Troy de ver a vida, cheio de absurdos ditos com seriedade.

Infelizmente, esperei que os dois últimos episódios da temporada se reunissem em apenas um grande evento, não apenas em um gancho entre episódios. Acho que na vontade de Harmon em dar um “final” para a série, ele teve de resolver todas as pontas soltas, tornando esse “evento único” impossível.

3.22 – Introduction to Finality

Cool…Cool, Cool, Cool!

Como exatamente classificar um audiovisual? Pode-se analisar aspectos técnicos, a escolha narrativa, a evolução dos personagens, e essa seria a forma mais objetiva de analisar qualquer série ou filme. Mas existe outra forma, muito mais subjetiva, que é levar em consideração todos os questionamentos que eles são capazes de nos trazer. A analise é sempre uma balança entre essas duas formas, pendendo para um lado ou outro da obra analisada. Foi em “Introduction to Finality” em que Community me fez pender essa balança de forma muito drástica.

A escolha do episódio é em afirmar as características dos personagens, que são as mesmas daquele longínquo episódio piloto há longos anos atrás e colocar um episódio de tribunal é perfeito para mostrar a evolução dos personagens dentro das suas personalidades. Incrível em Community é como os personagens não largam as suas próprias individualidades.

O episódio começa com o dialogo em volta da mesa, um vértice comum dos episódios da série. O fato de Jeff estar imerso no livro, enquanto os outros enfrentam a falta de Troy, relembra que mesmo tendo passado tanto tempo com o grupo, ele ainda mantém algo de egoísta, assim como Abed continua sendo o nerd anti-social, ou Britta continua engajada. Mesmo tendo crescido e amadurecido, Community nunca tornou seus personagens algo que eles não são (Leornard pegador em The Big Bang Theory?).

Essa cena inicial mostra o desentendimento entre Pierce e Shirley sobre quem deveria assinar o contrato como o dono da nova lanchonete de Greendale, depois que o Subway quebrou o contrato com a faculdade. O fato de o problema começar porque só há uma linha para assinaturas é um exemplo do como pequenos problemas e detalhes tomam proporções homéricas em Community.

A partir desse ponto os três plots evoluem: o de Troy, Abed e o tribunal. Sendo que todos são extremamente equilibrados em nível de evolução. Apesar de esse não ser um dos ótimos episódios focados em referencias, algumas estão ali escondidas diante de todos, como por exemplo, toda a história messiânica de Troy (Messianismo não é novidade em audiovisuais, passando por “Matrix”, “Crônicas de Nárnia”, “Star Wars, ou no terrível “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton). Toda a jornada de Troy ao entrar na faculdade de reparadores de ar-condicionado até o momento em que ele supera  o desafio final é uma perfeita miniatura de uma jornada messiânica audiovisual.

O fato de Troy não estar mais próximo desperta medo em Abed, permitindo a influencia do Evil Abed! SIM, Evil Abed voltou! Toda vez que o Danny Pudi pode sair da zona de conforto de Abed é um ponto alto da série. O dialogo com Britta é muito bom, por explorar o passado da garota de forma a mostrar todo o poder de Evil Abed. A partir do momento em que ele assume o controle, todo o plano de tornar a timeline mais nefasta se auto-explica. Confesso que ri as gargalhadas quando ele chega ao tribunal para cortar o braço de Jeff, mas não consegue por conta do tamanho do fio.

O plot do tribunal serviu para confrontar Jeff com o seu passado, principalmente a partir do momento em que Alan, antigo companheiro de Jeff e responsável pela sua demissão, retorna a série como advogado de Pierce. Deparar Jeff com o que ele costumava ser é ótima decisão desde o momento em que foi concebida. A evolução do plot foi muito bem traçada, principalmente na tentativa de acordo que Alan propõe. O fato de tudo ser resolvido não pelo próprio Jeff, mas pelas palavras de Shirley, foi o grande indicativo do quão grande é a importância do grupo.  Que Jeff não mudou da água para o vinho, mas toda a mudança foi conduzida por um querer, querer que o grupo proporciona. Não é a toa que é nesse momento em que o Evil Abed sucumbe. Talvez ele fosse vitorioso sem o discurso do Jeff, ou sem o Troy, mas agora ele pode contar com essas pessoas.

Foi no fim do tribunal que notei como Community é uma série incrivelmente humana, como o retrato que ela faz de amizade é tão honesto e puro. É como sempre enxerguei a amizade, como uma das formas de mudar os nossos tons sem mudar nossas cores. Nesse momento parece que Harmon ouviu meus pensamentos e tocou a música tema de Community enquanto passava as imagens dos personagens sendo os personagens: A cuidadosa Annie cuidando da inauguração da loja de Pierce e Shirley, Dean Spreck tramando enquanto Chang trama, mas o ponto alto foi o momento em que Abed entra em uma versão miniatura do Sonhatório.

Com a saída de Harmon, uma nova era de Community se anuncia. Pessoalmente, acho que a série vai desgingrolar  de vez e logo será cancelada. Se estiver certo vou poder comemorar o fato de estar certo, se estiver errado, vou perceber que Harmon conseguiu “infectar” alguns dos realizadores com o seu gênio e ficarei feliz. Se a série se torna algo ruim, bom, voltarei para essas três primeiras temporadas. No fim Community é como o Sonhatório, um lugar doido em que nos livramos temporariamente do quão maçante a vida pode ser. Se tudo der errado, os episódios até aqui servirão como o mini-Sonhatório de Abed, não tão grande quanto deveria ser, mas já é alguma coisa.

Obrigado Community.

P.S: Obrigada a todos que acompanharam as reviews dessa incrivel série.

Artigo escrito por: Murillo Martins

4 thoughts on “Community (3×21/22) – First Chang Dynasty/Introduction to Finality (Season Finale)

  1. Murillo, não comento no site, mas acompanho todas as suas Reviews de Community, que são de longe as melhores disponíveis na rede. A sua análise da série é perfeita, parabéns!

    E eu também temo pelo que nos aguarda na Fall Season, estou com um mau pressentimento a respeito dessa nova era de Community, mas é como você disse, nós temos 3 temporadas maravilhosas de uma das séries mais criativas, inovadoras e engraçadas de todos os tempos, e isso Sony/NBC não podem tirar de nós, fãs.

    Sds!

    • Impecável… Esta palavra define facilmente esta reta final de temporada de Community. Simplesmente impecável.

      A série se supera semanalmente, cheia de referências, uma comédia inteligente e engraçada, um programa atual mais ao mesmo tempo nostálgico. Enfim, um dos melhores programas da atualidade.

      Também tenho meus receios em relação ao que nos espera na próxima temporada, mas é que nem nosso amigo disse lá me cima…

      “nós temos 3 temporadas maravilhosas de uma das séries mais criativas, inovadoras e engraçadas de todos os tempos, e isso Sony/NBC não podem tirar de nós, fãs.”

      Excelente review, como de costume…

      Atts

    • Nossa… Muito obrigado Rafael! Para nós, que escrevemos por amor a camisa, é muito legal tal reconhecimento.
      Confesso que entrei numa ondar de raiva quando soube que da saida de Harmon. Pretendia largar a série de vez, mas como mantiveram os outros roteristas, resolvi dar uma chance.
      Agora é ver no que vai dar…

      Até Mais!

  2. Excelente review concordo em tudo o que foi dito e só tenho pena que community nao seja muito conhecida porque é sem duvida a melhor comedia da atualidade, so um pequeno reparo o Alan volta mas é como advogado do Pierce e nao da Shirley, penso eu se a minha memoria nao me falhar, mas de resto tudo 5 estrelas😀

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