Community (3×08) – Documentary Filmmaking: Redux


Ao ler o nome desse episódio imaginei algo próximo do ótimo “Intermediate Documentary Filmmaking” (2.16), e achei que sabia o que esperar de Community… Como estava errado.

De comum os dois são mockumentaries, histórias de ficção exibidas com a estética de documentário. Perceba que os elementos de documentário estão lá: As legendas com os nomes, câmera tremida e closes típicos, além das confissões dos personagens sentados olhando para a câmera. É ai que as semelhanças entre episódios acabam.

Nesse “Documentary Filmmaking: Redux” o documentário funciona como um “diário de produção” do novo comercial da faculdade Greendale, que é dirigido pelo incrível visionário Dean Pelton.  Ao perceber isso, dois grandes diários de produção me vieram à mente: o primeiro foi o notório “Lost in La Mancha”, que mostra os problemas de produção, a falta de planejamento e o azar, que fizeram com o filme jamais tenha sido concluído; a segunda chama-se “Hearts of Darkness” (“O Apocalypse de um cineasta”, no Brasil) que mostra os problemas homéricos que Coppola teve de enfrentar durante as gravações do clássico moderno “Apocalypse Now”. Fiquei muito orgulhoso de mim mesmo quando, na próxima cena, Abed coloca Hearts of Darkness como uma referencia declarada do episódio.

Isso deixou clara a incrível ambição também dos realizadores de Community, pois criar um episódio – referencia de vinte minutos, sobre um documentário de um dos maiores filmes de guerra já produzidos tendo uma história coesa e que não prejudique aqueles que não conhecem o filme original, é um desafio e tanto. E foi incrível como tudo funcionou.

Note como no primeiro dia de produção tudo está quase certo, como o reitor é calmo e delicado enquanto todos estudam o roteiro. Os problemas, que mais tarde atrapalharam a gravações, já estão lá como Jeff tentando sabotar o filme e Pierce tendo a certeza de que é uma estrela, fazendo exigências absurdas. Problemas que Coppola também teve ao filmar Apocalipse Now, pois Marlon Brando tinha um ego enorme e exigia várias coisas, inclusive se intrometendo nas áreas técnicas do filme.

Com uma ligação de Luiz Guzman, avisando que participaria do comercial, Pelton começa ter as ambições de grandeza e perfeccionismo, que Abed diagnostica como o começo da espiral de autodestruição do reitor. Focar o episódio na jornada de um personagem é uma aposta arriscada, pois se esse ator não é capaz de segurar as rédeas do personagem e das situações todo o conteúdo se perde, mas Jim Rash está incrível em todas as cenas em que aparece, desde reitor calmo e controlado à encarnação do General Kurtz, com calças camufladas. Destaques para uma das cenas finais, em que Dean dá um monólogo sobre Greendale enquanto queima seu diploma e fica nu. Note como a sala é escura enquanto Pelton se camufla com as cinzas, essa cena é idêntica a uma protagonizada por Kurtz em Apocalipse Now.

Outro grande destaque é a atuação de Joel MacHale, que me fez rir em todos os momentos que imitou o reitor. A jornada Jeff, enlouquecendo e perdendo a identidade funcionou tão bem que acreditei fielmente quando Pierce confundiu. A briga final dele com Pelton também foi incrível.

No fim, como está virando uma nova tradição em Community, Abed salva o dia ao usar as imagens do documentário para terminar o comercial, que ficou muito bom. O reitor percebe que foi exagerado e pede desculpa para todos do grupo de estudo.

A participação de Luiz Guzman foi muito engraçada, mas foi uma cena séria que quase me deixou sem chão. Guzman percebe que Pelton não acredita mais em Greendale e diz essas frases:

“Venere essa faculdade. Ela muda a vida das pessoas. Adorei meus dias aqui (…) Essa é uma faculdade especial”.

Essas frases caem como luvas nesse momento em que Community vai para a geladeira. Não podia concordar mais, Greendale é um lugar lúdico e incrível, com personagens marcantes e fortes em suas particularidades. Community faz rir muito, mas pode emocionar também quando quer. Esse é um paradoxo que essa série consegue suportar com grande potência e “Documentary Filmmaking: Redux” é a prova.

Artigo originalmente escrito por Murillo Martins e publicado no Portal de Séries.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s